domingo, 8 de fevereiro de 2015

Velhos olhos castanhos

Me colho, me encolho e me recolho.
Meus pés molhados pela fria chuva, que nem ao menos é a poética chuva de novembro.
Olho meu reflexo na poça d'água mais próxima... São os velhos olhos castanhos de uma forma que a muito eu não os via...
Somente o vazio e a loucura.
Ah! Os velhos olhos castanhos que um dia cantaram para um outro olhar, um olhar esverdeado que emanava tudo aquilo que os cansados olhos que vejo precisavam...
Agora só o vazio dentro das pupilas, um cigarro na mão e uma memória doída que passa como um filme falho enquanto encharco os pés...

domingo, 28 de setembro de 2014

As vezes a vida é melhor que a arte!



Ela entra no carro, seu coração batendo como se fosse sair pela boca...

As pessoas não percebem pelo vidro dos olhos mas ela está gritando...

Os minutos passam e ela parece que vai enlouquecer...

"Chegamos! Vou busca-lo!" diz a voz que dirigia e que durante o percurso todo parece ter dito algo, mas ela estava aflita demais para sequer entender as palavras...

Está nervosa com o cabelo que não para no lugar certo, com a maquiagem que fez as pressas... Com a roupa que não é exatamente a que tinha separado para encontra-lo...

Passam-se mais alguns minutos, ela soa frio...

Alguns passos se aproximam e ele entra no carro...

Ela quer se esconder com medo de decepcionar, não sabe onde põe as mãos, se mexe os pés, se arruma o cabelo...

Ele diz "Vc é linda"

E ela não reponde direito, porque está tentando parecer normal e não se atirar nos braços dele e dizer na frente de todo mundo chorando ou rindo que ele é tudo que ele sempre quis...

Um beijo no rosto que ela vai guardar na memória pelo resto da vida...

A porta se fecha e ela abraça, um abraço meio desajeitado mas que continha todo seu corpo, sua mente e sua alma.

E o carro parte...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013


Queime-a!
Deixe que as labaredas purifiquem toda essa podridão que ela trás dentro de si...

_ Era uma menina tão boa!

Exclama a velhinha que sempre a via passeando em seu vestidinho xadres sorrindo e até cumprimentando estranhos...

Mas aquela era só a máscara, ela dormia com os mortos... não por prazer ou por gostar do odor da morte... não eram os mortos deste mundo...

O verdadeiro problema é que ela já estava morta há algum tempo...

Perdida numa terra de ninguém... sua loucura aumentando... ela gritava, mas os gritos eram sufocados por sorrisos impostos por padrões que ela odiava, e as lágrimas apenas realçavam o brilho no olhar...

Poderia ter sido assim para sempre...
Até aquele dia...
Aquele fatídico dia, em que ela começou a vomitar todas as suas verdades e o que pensava...

_E fodam-se todos vocês! Só me dê mais um cigarro...

O vomito negro cheirando a carniça sujou a bela cidade que não tinha espaço para aquela criatura que andava a noite vestida do mais escuro negro, cabelos curtos mal cortados e maquiagem borrada...

Era um enigma que ninguém se importava em resolver... Ela e suas dores... Ninguém se importava...

E sendo assim...

QUEIME-A gritaram as vozes....

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Reflexo



Ela não sabia se definir...
A escuridão a sua volta não era formada por sombras e sim por ausências...
Era para ela aterrorizante a idéia de ter que encarar a própria face no espelho...
Quando ela falava nisso, as pessoas riam e diziam que ela ainda era muito nova pra ter medo de espelhos...
O problema não era a face ( e isso que não entendiam), o problema eram os olhos, onde ela enxergava toda sua loucura... Aqueles olhos sempre procurando alguém dentro dela e nunca encontrando nada que valesse a pena...

Aqueles mesmos olhos castanhos claros que um dia encontraram um par de olhos verdes...
E eles brilharam! Estavam brilhando para ela...
E aquele desconhecido par de olhos parecia enxergar algo bom dentro dos tristes olhos castanhos...
E os olhos castanhos se encantaram e quase cantaram uma canção, na melhor explicação sorriram com o olhar, sem ao menos pedir emprestado a boca suas funções...

Agora os olhos castanhos vivem de olhares hora profundos, hora alegres, hora libidinosos, até triste de vez em quando...
Mas sempre se olhando dentro daqueles olhos verdes. Sem espelhos.
Porque é naquela imensidão esverdiada que os olhos castanhos souberam ver a própria alma refletida.
E gostaram do que viram...

domingo, 2 de junho de 2013

Que horas são?




Ele chega
Já é de manhã, ou quase... estou perdida nas horas...
Só sei que sou arrancada violentamente do sono pelos seus braços fortes
Sinto minha cintura sendo puxada e meus joelhos dobrarem...
"Engole tudo"
É tudo que ele diz... e eu faço sem debater ou mesmo questionar...
Ele pensa que me maltrata, mas mal sabe que por dentro da princesa existe uma meretriz, sedenta por estar envolvida em seu suor e porra...
Me vira e sinto a pressão dentro de mim, não posso evitar os gemidos... ele está me segurando com tanta força... respire fundo...
Ele me inunda e se deixa cair ao meu lado... como um gato procuro seus afagos depois de ser usada... ele me envolve em seus braços e volto ao meu sono que ainda não descobri se tirado a noite ou ao dia...

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Apostasia por instantes - a aposta



Lá estava ela... Estagnada num daqueles pós términos que deixam a pessoa mal e sem chão...
Foi quando ele apareceu.
Ela havia acabado de tomar um vidro de antidepressivos e gritava ao mundo sua aposta com Deus: " Se tem algo de bom pra mim, me mostre agora e me salve de mim mesma... caso contrario simplesmente me deixe ir em paz..."
A noite foi longa...
Tubos pelo nariz e na garganta, até que as capsulas fossem parar fora dela...
Ok... havia perdido a aposta...
E quando pensou que o mundo não era mais o seu lugar, lá estava ele...
Não era um ser perfeito como uma estátua de cera... tinha cicatrizes e também andava meio perturbado com a imensidão do mundo...
E o vazio dele tocou o vazio dela...
Não porque era igual, mas porque ela quis preenche-lo...
A dor dele era mais insuportável para ela do que sua própria dor...
E ela ansiava por suas palavras como um tigre faminto...
E ele se aproximou... mesmo sabendo de suas loucuras e suas feridas... Ele se aproximou...
E ao preenche-lo ela também foi preenchida e não quis mais fazer aposta nenhuma... Sentiu-se grata por ter perdido e pela primeira vez em muito tempo acreditou que existia algo maior e um lugar pra ela nesse plano...

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Meu amor

São cinco e meia da manhã...
Meu amor está dormindo...
Eu tenho a vontade impulsiva de ligar só pra ouvir sua voz sonolenta me dizendo qualquer coisa... um oi, ou um resmungo qualquer
Tenho vontade de sair andando até meus pés sangrarem só para chegar onde ele está e sentir sua respiração...
Sua voz de espanto ao me ver chegar do nada...
É realmente isso... 
Chegar do nada...
Chegar do nada a que se resumem meus dias sem ti...
Um nome... que me faz querer viver só para ouvir sua respiração...
Lukas...